Naquela manhã, Theo encontrou um problema no desenho da geladeira. O sol tinha perdido o amarelo. As linhas continuavam ali. A cor, não. No chão havia uma gotinha dourada caminhando sozinha.
Theo pegou a lupa de brinquedo. A gotinha escapou por baixo da porta e deixou um pontinho no tapete. Do lado de fora, o girassol do jardim estava cinza. Aquilo era um caso de verdade.
Na praça, Theo encontrou uma fonte sem azul. Um pombo pousou na beirada e olhou para a água. Não pareceu impressionado. Talvez pombos já estejam acostumados a trabalhar de cinza.
Perto da fonte havia três marcas azuis e um risco curvo. Theo desenhou tudo num caderninho. Não sabia quem tinha passado. Mas sabia uma coisa: alguém estava levando as cores para algum lugar.
A primeira suspeita foi o vento. Theo correu atrás de uma fita azul que flutuava entre as árvores. Ela virou a esquina. Quando chegou lá, só havia roupas no varal e uma senhora procurando a meia vermelha.
A meia estava no varal. Só não estava vermelha. Theo encontrou uma gota de cor no muro e uma marca pequenina de pata. O vento podia levar fitas. Mas desde quando tinha pés?
Atrás do muro, alguma coisa se mexeu. Theo espiou: um gato laranja dormia num vaso. Tinha patas, sim. Só que muito maiores. E o único mistério que queria resolver era onde tirar a próxima soneca.
Theo voltou às pistas: patinhas pequenas, risco curvo, manchas coloridas. Numa esquina, o risco fazia uma voltinha perfeita. Parecia… um rabo enrolado! Foi quando um espirro veio de dentro do canteiro.
— Atchim! Uma nuvem amarela saiu das flores. Theo se abaixou. No galho mais baixo havia um camaleão quase invisível. Só três pintinhas claras e uma bolsinha muito cheia entregavam o esconderijo.
— Você viu alguém levando cores? — perguntou Theo. O camaleão ficou vermelho. Depois azul. Depois um verde muito constrangido. — Depende — respondeu. — Levar e pegar emprestado são a mesma coisa?
Ele se chamava Pingo. Estava preparando uma surpresa numa parede vazia atrás da biblioteca. Theo abriu a bolsinha. Lá dentro brilhavam o amarelo do girassol, o azul da fonte e o vermelho da meia.
— Eu ia devolver depois da festa — explicou Pingo. Theo pensou na senhora do varal e no jardim apagado. — Mas ninguém sabia disso. Pingo apertou a alça da bolsa. A surpresa estava ficando diferente do que imaginara.
Theo pediu para ver a parede. Pingo levou a bolsa até lá. Tinha pintado um arco de muitas cores, mas faltava quase tudo. — Queria fazer um lugar bonito para todo mundo — disse baixinho.
Uma gota azul escapou da bolsa. Encontrou uma amarela no chão. As duas viraram verde! Theo arregalou os olhos. Pingo também. Por um segundo, esqueceram até de respirar. Depois o verde fez cócegas no pé dele.
— Não precisamos levar todas as cores — disse Theo. — Podemos pedir um pouquinho e inventar outras! Primeiro, porém, tinham um caminho inteiro para refazer. Pingo olhou para a bolsa. — Eu vou junto.
Na fonte, Theo abriu a bolsa e Pingo devolveu o azul. A cor correu pelos azulejos como um rio pequeno. O pombo pulou de susto. Finalmente tinha encontrado alguma coisa interessante naquela manhã.
No varal, Pingo devolveu o vermelho e pediu desculpas. A senhora ouviu o plano do mural. Theo mostrou a gota verde. Ela sorriu e trouxe um potinho de tinta lavável que tinha guardado.
O girassol ganhou o amarelo de volta. O desenho da geladeira também. Theo contou a ideia à família e voltou com pincéis grandes. Pingo carregou um deles como se fosse um remo.
Na biblioteca, Theo pediu licença para usar a parede. A bibliotecária chamou os vizinhos. Cada pessoa trouxe uma cor, uma ideia ou uma mão para ajudar. Pingo foi apresentar a surpresa. Dessa vez, sem esconder a bolsa.
Theo misturou amarelo e vermelho: laranja. Vermelho e azul: roxo. Pingo misturou tudo de uma vez. Saiu marrom. Olhou o potinho, decepcionado. — Ótimo para o tronco da nossa árvore! — disse Theo.
O mural ganhou uma árvore, uma fonte, um gato dorminhoco e um varal dançante. Theo deixou espaço para o pombo. Pingo pintou três pintinhas claras num camaleão escondido entre as folhas.
Quando terminaram, todo mundo procurou alguma coisa no desenho. Theo encontrou a meia. A senhora encontrou o gato. Pingo encontrou um lugar onde cabia exatamente do seu tamanho. A festa já tinha começado.
Theo fechou o caderninho de pistas. Caso resolvido! Pingo encostou a cauda na sua mão. — Da próxima vez eu pergunto primeiro. — E eu levo a lupa — respondeu Theo. — Vai que o roxo resolve passear.
Na manhã seguinte, o sol do desenho continuava amarelo. Theo sorriu. Mas havia uma novidade no canto da folha: três pintinhas claras e um rabo enrolado. Alguém tinha vindo deixar uma cor de presente.