Uma risadinha saiu do vaso de Nina. Depois veio um espirro. A flor balançou e uma voz reclamou: — Pólen no nariz não estava no plano! Nina afastou as folhas com um dedo.
Dentro da flor havia uma fada de vestido verde. — Sou Luma. Preciso de ajuda com uma coisa que não cresce. Nina mostrou o vasinho. — Minha planta também demorou. Luma abriu um sorriso. — Então você entende.
Luma tocou uma gota de orvalho. Ela cresceu até virar uma porta transparente. Nina atravessou e ficou do tamanho de uma margarida. Um grão de terra parecia uma pedra. Uma formiga parecia ter um compromisso importante.
— Falta uma coisa — disse Luma. Duas asas leves apareceram nas costas de Nina. Na primeira tentativa, uma subiu antes da outra. Nina rodopiou devagar e pousou numa pétala. Era um começo bem redondo.
Luma mostrou o caminho voando baixinho. Nina foi atrás. Passaram por uma ponte de raiz, uma fonte de orvalho e um caracol que levava a casa inteira para tomar café. O jardim parecia guardar mil segredos.
No centro do jardim havia um canteiro vazio. Luma mostrou uma semente prateada. — Todas as outras já brotaram. Só essa não. Nina tocou a casquinha. Ela tinha uma espiral e estava fresquinha.
Primeiro, tentaram uma canção. Luma cantou fino; Nina cantou baixinho. A semente não se mexeu. O caracol parou para ouvir e pediu mais uma. Pelo menos alguém tinha gostado do espetáculo.
Depois, Luma trouxe um cobertor de pétalas. Nina cobriu a semente com cuidado. Nada. Trouxeram mais uma pétala. E outra. O canteiro ficou parecendo uma cama onde ninguém encontrava o travesseiro.
— Talvez precise de muito sol! — pensou Luma. Tiraram as pétalas. Nina abriu espaço entre as folhas. A luz bateu na casquinha prateada. A semente continuou quieta. Luma sentou, cansada.
Nina se sentou também. Quando ninguém fez nada por um instante, percebeu um detalhe: havia um desenho de lua debaixo da espiral. — Você conhece outra semente assim? Luma levantou as asas. Talvez conhecesse.
No jardim antigo, Luma lembrava de flores prateadas. Nina pegou uma folha para desenhar o caminho. O caracol ofereceu carona. Agradeceram muito. Mas queriam chegar antes da semana seguinte.
O caminho passava por baixo de uma roseira. Nina dobrou as asas para atravessar o túnel de folhas. Luma foi na frente. Do outro lado, o jardim era mais quieto, mais fresco e cheio de sombra.
Ali estavam as flores prateadas. Todas fechadas. Nina comparou uma semente caída com o desenho na sua folha. A mesma espiral. A mesma lua. Luma bateu palmas. Tinham encontrado a família da semente!
Nina reparou na terra: fofa, úmida e protegida do sol forte. Perto das raízes havia folhas caídas. Luma olhou para as flores fechadas. — Mas como vamos saber se estão bem?
Um vaga-lume acordou debaixo de uma folha. — Voltem quando a lua aparecer — murmurou. Apagou a luzinha e voltou a dormir. Nina olhou para Luma. A semente talvez não estivesse atrasada. Talvez tivesse outro horário.
De volta ao canteiro, Nina e Luma escolheram um cantinho sombreado. Afofaram a terra com gravetos arredondados. Colocaram a semente e cobriram com uma camada fininha. Desta vez, sem montar uma cama de pétalas.
Trouxeram uma gota de água numa pétala em forma de colher. Nina inclinou devagar. Luma quis buscar mais dez. — Vamos sentir a terra primeiro? — sugeriu Nina. Já estava úmida. Guardaram a colher.
Esperar parecia fácil por fora. Por dentro, Luma já tinha perguntado sete vezes se havia brotado. Nina propôs decorar o caminho enquanto isso. Fizeram uma fileira de pedrinhas, sem apertar a terra do canteiro.
O céu foi ficando azul-escuro. Nina ouviu os sons do jardim mudarem. O caracol chegou, finalmente. — Perdi alguma coisa? Luma abriu espaço para ele. Não tinha perdido. O melhor ainda estava por vir.
Quando a lua passou entre duas folhas, a terra se mexeu. Nina segurou a mão de Luma. Um fio verde apareceu. Cresceu devagar, fez uma curva e ergueu um botão prateado. Ninguém puxou. Ninguém apressou.
O botão abriu uma pétala. Depois outra. Dentro da flor, gotinhas brilhavam como pequenas luas. Nina viu o próprio rosto refletido numa delas. Luma esqueceu a canção inteira. Só conseguiu dizer: — Oi.
A luz da flor alcançou o caminho de pedrinhas. Vaga-lumes vieram visitar. O caracol encontrou um lugar para descansar. Nina sorriu: o canteiro que parecia vazio estava cheio de chegadas.
Luma acompanhou Nina até a porta de orvalho. As asas emprestadas se desfizeram em luz macia. — Posso voltar? — perguntou Nina. — Pode. Aqui sempre existe alguma coisa crescendo no seu próprio tempo.
Na manhã seguinte, Nina foi olhar o vasinho. Nada parecia diferente. Aproximou-se mais. Na terra havia uma fileira de pedrinhas minúsculas. E, debaixo de uma folha, uma colher feita de pétala.