Na manhã da festa do reino, a princesa Nina encontrou um sapato caminhando sozinho pelo corredor. Depois veio o outro. Os dois passaram pela porta e começaram a dançar. — Eu ainda nem tomei café — disse ela.
Na cozinha, o bolo flutuava perto do teto. No jardim, choviam margaridas. Nina abriu a janela e uma flor pousou na sua coroa. A festa prometia surpresas. Só não precisavam chegar todas ao mesmo tempo.
Tito, o passarinho coral, apareceu com uma fita no bico. — A fonte dos desejos acordou! Nina correu até o pátio. A água brilhava entre três conchas de pedra. Ao redor, todo mundo falava junto.
— Pedi um bolo nas alturas — disse o confeiteiro. — Pedi uma chuva de flores — contou a jardineira. A dona dos sapatos suspirou: — Só queria que meus pés dançassem sozinhos. Nina olhou para a fonte. Ah.
A princesa Nina tentou resolver tudo depressa. — Fonte, coloque cada coisa no seu lugar! A água borbulhou. O bolo pousou dentro de um armário. As flores entraram em vasos. Os sapatos se esconderam debaixo de um banco.
O confeiteiro abriu o armário. O bolo estava lá, apertado entre duas bandejas. Nina ajudou a tirá-lo. — Pelo menos parou de voar — disse Tito. Não era bem o resultado que ela queria.
Nina voltou à fonte. — Preciso de um pouco de silêncio para pensar. PUF! Os sinos pararam. A água ficou muda. Tito abriu o bico: nenhum som. A princesa tapou a boca. Tinha piorado outra vez.
Ela respirou fundo e falou bem devagar: — Quero que os sons do reino voltem como eram antes deste meu último pedido. A água fez PLIC. Tito fez PIU. Um sino fez DONG. Nina soltou os ombros.
A princesa Nina pegou seu caderno. Desenhou o bolo, as flores, os sapatos e uma orelha. Tito inclinou a cabeça. — A orelha também saiu do lugar? — Não. É para eu lembrar de usar a minha.
Primeiro, Nina ouviu o confeiteiro. Ele queria um bolo bonito numa mesa alta, para todos conseguirem ver. Não queria que voasse. A princesa anotou uma mesa embaixo do desenho do bolo.
Depois, Nina ouviu a jardineira. Ela queria decorar o caminho com flores. Não queria pétalas caindo dentro das xícaras. Juntas, escolheram onde colocar os vasos. Nenhum desejo foi necessário para carregar os menores.
A dona dos sapatos queria aprender os passos da dança. Nina chamou o professor de música. Ele marcou o ritmo batendo palmas. Os sapatos podiam ficar quietos: os pés é que precisavam de companhia.
Restava desfazer os encantamentos. Nina pediu um de cada vez, dizendo exatamente o que precisava voltar ao normal. A fonte respondeu com três bolhinhas. O reino pareceu sossegar. Até o espirro de Tito soou tranquilo.
Foi quando um menino chegou correndo ao pátio. — Quero que a festa dure para sempre! Nina estendeu a mão para pedir calma. Tarde demais. O relógio parou. A mesma nota começou a tocar sem terminar.
As bandeirinhas ficaram imóveis. Um confete parou bem na frente do nariz de Nina. Tito continuava voando, mas a música parecia um mosquito muito educado: ZUUUU. Ninguém sabia onde terminava o próximo segundo.
O menino começou a chorar. — Eu só não queria que meus amigos fossem embora. Nina se abaixou perto dele. Agora entendia o pedido. Não era sobre relógios. Era sobre uma despedida que ele ainda não queria fazer.
— A gente pode combinar outro encontro — disse Nina. — E aproveitar este até o fim. O menino enxugou o rosto. Pensou um pouco. Depois assentiu. A princesa abriu espaço para ele junto da fonte.
Juntos, pediram que o tempo e a música voltassem a seguir normalmente. Nina esperou. O ponteiro andou. O confete caiu no chão. A nota virou uma melodia. Tito cantou por cima, só para conferir.
Antes de abrir a festa, Nina reuniu os moradores. A fonte escutava palavras, mas não adivinhava o que cada pessoa queria dizer. Resolveram conversar sobre os pedidos antes de fazê-los. Tito ficou encarregado de lembrar as pausas.
A princesa Nina ainda tinha um desejo. Queria que todos conseguissem participar da festa. Olhou para a mesa alta demais, o caminho estreito e o vizinho que não encontrava lugar para sentar. Fechou o caderno.
Chamou os amigos. Baixaram uma bandeja de doces, afastaram os vasos e trouxeram mais bancos. Nina testou o caminho ao lado de uma menina numa cadeira de rodas. Agora dava para chegar pertinho da música.
A festa começou. Nina dançou, comeu bolo e ouviu Tito inventar uma canção terrível sobre margaridas. Todo mundo riu. A fonte borbulhou baixinho. Pela primeira vez naquele dia, ninguém pediu que ela mudasse nada.
Quando chegou a hora de ir, o menino combinou uma nova brincadeira com os amigos. Nina viu a despedida virar um “até logo”. Os sinos tocaram. A festa tinha acabado — e isso deixava espaço para a próxima.
Na manhã seguinte, os sapatos estavam no lugar. O bolo, quase todo na barriga do reino. Nina passou pela fonte e sorriu. Tito cochichou: — Deseja alguma coisa? — Sim. Mais cinco minutinhos de café da manhã. — Isso eu consigo sem magia.