Na oficina da escola, cada criança escolheria peças para a feira de invenções. Theo encontrou uma caixa no canto. Dentro dela havia duas rodas diferentes, um braço sanfonado e uma cabeça que piscava.
— Essas peças nunca combinam — avisou uma colega. Theo encaixou uma roda. Depois a outra. A cabeça acendeu os olhos. — BI… PO? — disse ela. Pronto: o robô já tinha nome.
Bipo ficou de pé — quer dizer, de rodas. Theo acenou. Ele também. Só que o braço continuou abrindo, abrindo, abrindo… e acenou para o outro lado da sala. Era um olá bem comprido.
Theo preparou o primeiro teste. — Pode trazer aquele lápis? Bipo avançou, pegou o lápis e voltou carregando também um pote, três fitas e uma meia. Ninguém sabia de quem era a meia.
Para o segundo teste, Theo pediu um círculo. Bipo desenhou uma espiral. Pediu um quadrado: saiu uma nuvem. Pediu um triângulo: parecia um sanduíche amassado. — Você desenha com fome? — perguntou Theo.
No terceiro teste, Bipo precisava soprar uma bolinha até um alvo. Theo colocou tudo no chão. O ventilador abriu e — FUUU! — a bolinha passeou pela sala, seguida de todos os papéis.
Theo desligou o ventilador e sentou no tapete. Os outros robôs já empilhavam blocos e dançavam. Bipo ofereceu a meia. Era a única coisa que ainda tinha para ajudar.
— Eu queria que você fizesse alguma coisa direito — escapou de Theo. As luzes de Bipo ficaram baixinhas. A meia caiu. Theo ficou olhando para ela. Aquilo não tinha saído direito também.
Theo se aproximou. — Desculpa. Você está tentando. Eu também estou aprendendo. Bipo levantou um braço. Desta vez, Theo abriu os dois. O abraço sanfonado deu uma volta quase inteira.
Em vez de mandar, Theo resolveu observar. Bipo podia alcançar longe, fazer linhas curvas e soprar bem forte. Três coisas. Theo desenhou cada uma num cartão. Ainda não eram um plano. Eram um começo.
Tentaram levar fitas de uma ponta da mesa à outra. Bipo esticou o braço e conseguiu! Theo prendeu uma fita nele. Quando voltou, o robô parecia um presente que tinha resolvido passear.
Na hora da feira, Theo empurrou Bipo até o pátio. Havia invenções por todo lado. Bem no centro, uma turma montava um céu de pássaros de papel, pendurados num varal baixo.
Uma rajada atravessou o pátio. As fitas se soltaram. Os pássaros caíram atrás de uma grade baixa, num canteiro enlameado. Theo viu uma colega segurar o último fio. — Nosso céu acabou!
Bipo abriu o ventilador. Theo pousou a mão no botão antes que ele soprasse. Vento forte tinha causado a confusão. Precisavam primeiro alcançar os pássaros sem pisar nas plantinhas.
— Seu olá comprido! — lembrou Theo. Bipo esticou o braço por cima da grade. Pegou um pássaro pela fita. Depois outro. Um saiu com lama no bico, mas todos voltaram.
Theo espalhou os pássaros sobre a mesa. As asas molhadas estavam tortas. A colega suspirou. Bipo desenhou uma espiral no ar. Theo olhou para os cartões. Talvez ainda faltasse usar outra ideia.
Com uma professora por perto, Theo testou o ventilador bem longe da mesa. Só uma brisa chegou aos papéis. Aproximou um pouquinho. Parou. Agora as asas secavam sem sair voando.
Esperaram. Theo virou os pássaros com cuidado. Bipo manteve a brisa. A colega buscou novas fitas. Quando o último papel secou, o pátio já estava cheio de visitantes. Faltava montar o céu.
Theo teve uma ideia: em vez de uma fila reta, os pássaros poderiam fazer uma espiral. Bipo desenhou o caminho num papel. Pela primeira vez, ninguém pediu que ele apagasse a curva.
Com ajuda da professora, prenderam as fitas num suporte baixo e firme. Theo escolheu a ordem dos pássaros. Bipo alcançou a última ponta com seu braço comprido. A espiral ficou pronta.
Theo levou Bipo para a distância certa. Ligou a brisa. Um pássaro girou. Depois outro. O céu de papel começou a dançar, sem perder ninguém pelo caminho. Até a professora abriu um sorriso enorme.
Uma criança perguntou o que aquele robô sabia fazer. Theo olhou para Bipo. — Alcança longe, inventa curvas e ajuda a voar. Bipo piscou duas vezes. Era uma apresentação muito melhor que “peças que não combinam”.
Na volta à oficina, Theo separou uma caixa para novas experiências. Bipo trouxe fita, lápis e dois cartões. Depois estendeu a meia. Continuavam sem saber de quem era. Resolveram fazer uma bandeira.
Antes de ir embora, Theo pediu só mais uma coisa: — Um tchau. Bipo esticou o braço até a porta. Theo riu. Algumas coisas já estavam funcionando exatamente do jeito deles.